domingo, 17 de junho de 2012

As Troianas: O tema da guerra e a relação com a crise nas estruturas da pólis


Texto desenvolvido por Charlaine Rodrigues, Alex Magnus e Glauce Teixeira no Núcleo de História do Teatro da ELT - Escola Livre de Teatro, de Santo André. Neste primeiro semestre de 2012 o Núcleo, orientado por Antônio Rogério Toscano, esta estudando o teatro grego.

AS TROIANAS: O TEMA DA GUERRA E A RELAÇÃO COM A CRISE NAS ESTRUTURAS DA PÓLIS


A SOCIEDADE GREGA E A GUERRA DO PELOPONESO

Considerado um dos maiores conflitos bélicos ocidentais a Guerra do Peloponeso durou 27 anos (431 a 404 a.c.). Esta foi movida pela busca de hegemonia e expansão sobre o território grego envolvendo as cidades-estado Atenas e Esparta, duas das maiores potências da região. Elas possuíam características distintas que foram cruciais para o resultado da guerra: Esparta era constituída sob um regime político oligárquico e mantinha forte tradição belicista, tendo o maior e melhor exército da época. Atenas se estabelecia sob um regime democrático e os costumes dos cidadãos eram baseados no desenvolvimento do pensamento, da cultura e do direito. Esparta venceu a guerra e Atenas, antes orgulhosa de ser uma cidade expansiva e vitoriosa, encara uma derrota que abala as suas estruturas política e social.

VERNANT (1999 apud GRILLO) fala da relação do cidadão grego com a guerra afirmando que “(...) para os gregos da época clássica, a guerra era natural”. Esta afirmativa é direcionada à defesa da guerra para além da simples busca de imposição sob outros povos, mas também como uma necessidade pelo próprio contexto de formação e geografia daquela região. As cidades eram independentes e constituídas em regiões de difícil agricultura e dependendo de mares para locomoção, comércio e sustento. Portanto, conquistar regiões não era somente uma questão de poder e reafirmação da supremacia individual da pólis, mas também de sobrevivência da cidade. Sendo assim, a ideia de guerra fazia parte da formação da cidade e do povo grego como afirma Grillo

Portanto, a guerra não esta apenas submissa à cidade, a serviço da política, ela é a própria política, identificando-se, assim, com a cidade, pois o papel do guerreiro coincide com o de cidadão, ou seja, ele se manifesta como guerreiro, uma vez que ele é um agente político com o poder de decidir as questões comuns do grupo. (GRILLO, 2010. Pag 04).

No século V a.c., durante a Guerra do Peloponeso, a visão dos cidadãos atenienses em relação à guerra indicava mudanças. Sendo Atenas uma democracia e berço do pensamento filosófico e da discussão de ideias, os cidadãos podiam escolher pela guerra ou não como, por exemplo, em 415 a.c. quando a população ateniense concordou com a invasão da Sicília onde o exército de Atenas foi massacrado. A guerra do Peloponeso acarretou uma onda de ceticismo, descrença nos antigos valores sociais e religiosos, que influenciou Eurípedes. Nesse sentido, o tradutor Mário da Gama Kury afirma

Espetáculo como o massacre impiedoso dos habitantes da ilha de Melos pelos atenienses (416-415), são talvez a explicação para a profunda simpatia com que Eurípides trata os vencidos nas Troianas, em contraste com a arrogância e a brutalidade dos vencedores. A peça é, de certo modo uma ilustração, por um dos cidadãos de Atenas que aniquilou Melos, dos horrores que esperam os vencidos na guerra. (KURY, 2003: p.82)

Melos era uma cidade localizada na ilha de Melos que, por não se submeter a Atenas e manter-se neutra foi sitiada por Atenas, quando a cidade se rendeu e foi invadida todos os homens foram mortos, mulheres e crianças foram vendidas como escravas e a ilha foi entregue a colonos atenienses. (FUNARI, p.04).

Nesse contexto Eurípedes escreve “As Troianas” trazendo para o presente um conflito de formação da sociedade grega e de seus ideais de guerra para, de certa forma, expor para os atenienses a relação da cidade com a prática da guerra. A peça se estabelece sobre a perspectiva do derrotado, posição naquele momento ocupada pela cidade ateniense.

EURÍPEDES
O autor, nascido por volta de 480 a.c. em Salamina foi discípulo de Anaxágoras e Protágoras e Sócrates, que teria sido grande admirador e mesmo colaborador do poeta. Eurípedes escreveu, no mínimo, 74 peças, sendo 67 tragédias e 7 dramas satíricos dessa produção chegaram até nossos dias as 19 peças, como Alceste, Andrômaca, Hécuba e  As Troianas.

AS TROIANAS
A peça faz parte de uma tetralogia composta pelos textos Alexandre, Palamedes e Sísifo. Somente As troianas chegou até o século XXI.

Além do contexto da guerra a peça expõe outra mudança na sociedade: os Deuses estavam cada vez mais distantes daquela realidade. O prólogo mostra o diálogo entre Poseidon e Palas Atena quando ele reclama a perda de uma cidade que o cultuava e ela reclama a falta de respeito aos templos e dos ritos aos deuses. A decisão de dizimar os gregos quando voltarem para casa mostra que ninguém sairá impune da peça. Os que iniciaram o conflito são os que acabam com ele. A partir disso, eles não participam mais da história. O destino dos homens esta resolvido, agora estes precisam se entender em terra num novo formato de sociedade baseada no direito e nos embates por meio do diálogo com os Deuses. Duas formas de pensar, dois formatos de sociedade convivendo na mesma peça. O passado tentando mostrar o presente e aplicando a reflexão sobre os atuais conceitos de direito e sociedade.

A relação de descrédito dos deuses também pode ser vista na discussão entre Helena e Hécuba em que a primeira culpa Afrodite por ter sido levada para Tróia e pelos pedidos sem resposta de Hécuba para que os Deuses intercedam pelos sobreviventes da guerra. As duas se colocam na posição de dizer o que os Deuses fizeram, como pensam ou como deveriam agir.

Eurípedes levou para o palco o racionalismo no convívio dos filósofos contemporâneos, entre os quais os sofistas. Um grupo de professores que, mediante pagamento, iam ao encontro com jovens para ensinar a kalokagathia que abrange conceitos de cidadania e virtude para o convívio dos homens. Exemplo disso esta na cena de Hécuba, Helena e Menelau, reflexo típico das disputas sofísticas nas quais se defendiam o indefensável como exercício de eloquência.

O Eurípedes coloca diretamente na boca dos personagens pensamentos sobre a guerra como na fala de Cassandra: “Deve o mortal sensato detestar a guerra;/ se, entretanto, ela for inevitável,/ os louros não serão de quem morrer lutando por uma causa ignóbil que afinal só traz desonra”. (2003: 189, versos 494-497). O questionamento sobre a validade e da guerra também é expresso por meio do personagem Taltíbio, o arauto, que também mostra certa hesitação quando as decisões tomadas relacionadas aos vencidos como quando anuncia que o filho de Heitor, Astianax, será executado.

A construção de imagens fortes potencializa a espetacularidade da peça como descreve Mário da Gama Kury

Do ponto de vista da teatralidade, a “mise em scêne” das Troianas sobrepuja a de todas tragédias gregas por seu movimento, sons e cores, pelo efeito de conjunto, enfim, que deveria produzir nos espectadores: a presença dos deuses, no princípio; a saída de Cassandra da tenda fulgurante, entoando em delírio o hino nupcial num bailado frenético: a entrada de de Andrômaca e Astiânax no carro puxado por soldados gregos, em que se destaca o grande escudo de Heitor, que depois serviria de féretro para Astiânax: a presença em cena do cadáver de Astiânax sobre o escudo de Heitor: Hécuba e as mulheres do coro batendo no chão com as mãos para invocar os mortos: e especialmente o grande final (a ordem dada aos soldados para incendiar o que restava da cidade e às cativas para marcharem, ao sinal das trombetas, para o nau do seus senhores em direção ao fundo da cena ; o estrondo de Pérgamo – cidadela de Tróia  - desmoronando fragorosamente, fazendo a terra tremer; o toque das trombetas e a marcha das troianas rumo à nau que as levará para o cativeiro). (KURY, p. 85)

Conforme afirma KURY (2003: p.234) “A presença de uma criança de tenra idade na cena grega era incomum e certamente a ideia de Eurípedes deve ter comovido os espectadores da época, como até hoje nos comove”. A construção do texto da peça expõe o sofrimento dos derrotados e as perversidades dos vencedores de forma gradativa. Mesmo dividida em quadros, quanto mais a peça avança, mais terrível ela se torna quando mostra mães que perdem os filhos, esposas que perdem os maridos, homens que morrem em vão longe de suas casas e família, mulheres que serão violadas e tratadas como escravas culminado na morte de crianças e o incêndio do que sobrou da cidade. O autor potencializa que não há motivo de orgulho em uma guerra onde nem mesmo os inocentes e ignorantes daquela situação são poupados.

Vanessa Redgrave como Andrômaca
O texto "As Troianas" foi adaptado para o cinema, dirigido por Michael Cacoyannis, em 1971. O cineasta suprimiu a intervenção dos Deuses Posêidon e Palas Atena no início da peça, mas vale a pena assistir. O filme é bem produzido e tem boas interpretações. Destaque para a ótima Vanessa Redgrave que faz a personagem Andrômaca. O filme pode ser adquirido em formato DVD.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EURÍPEDES. Tradução de Mário da Gama Kury. As Troianas. Editora Civilização Brasileira: 2003.

FUNARI, PEDRO PAULO ABREU. Usos da Guerra do Peloponeso. http://www.historiamilitar.com.br/artigo1RBHM4.pdf em 16/05/2012.

GRILLO, JOSÉ GERALDO COSTA e PEDRO PAULO ABREU FUNARI. A historiografia sobre a guerra na Grécia Antiga: dos ‘relatos-batalha’ à abordagem histórico-cultural.


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